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Era uma vez... |
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Um garoto criado no interior, conhecido pelo nome de João. Suas lembranças mais antigas são de um tempo em que mal conseguindo carregar a enxada, acompanhava os pais nas lides da roça, revirando a terra para semear a próxima colheita. Naquele tempo não se ouvia falar de leis proibindo crianças de trabalhar.
João cresceu, mudou-se para a cidade grande em busca de melhores oportunidades, casou, trabalhou em diversas empresas aumentando a renda com serões, criou os filhos, enviuvou e até conseguiu se aposentar. Acalentou por muitos anos o sonho de continuar os estudos, mas sempre havia algo mais urgente em que pensar. Um braço quebrado do filho, uma doença da esposa, um telhado para consertar, um piso para trocar... Do tempo da escola primária, a leitura foi a habilidade que continuou cultivando, lendo jornais, revistas e livros, arrecadados em lixeiras ou emprestados da biblioteca, uma vez que sua aposentadoria nem sempre "agüenta" até o final do mês.
Foi assim que João descobriu que não precisava mais pagar a passagem de ônibus ou entrar em filas. Leu sobre a globalização, municipalização da saúde, ONGs... Entendeu algumas coisas, outras ficaram martelando na sua cabeça. Os jornais escreviam muito sobre investimentos sociais, mas a maioria dos projetos eram voltados para a criança e o adolescente; a qualidade de vida para o idoso, tema de muitas reportagens, não condizia com as dificuldades para conseguir uma autorização para um exame mais complexo ou internação hospitalar. Sua vizinha esperou durante meses para fazer um exame solicitado pelo médico do "postinho", até resolver ir para a casa de parentes na capital e tentar o exame por lá.
João leu sobre a importância da prevenção, da boa alimentação, da atividade física. Resolveu que pelo menos na parte da atividade física estava bem, já que caminhava pelo menos uma hora por dia, mas sua alimentação deixava a desejar, pois muitas vezes tinha que dormir com a barriga roncando e começar a manhã procurando algum biscate, que permitisse alcançar o final do mês. Pensou: Se os filhos ajudassem... Sabia que poderia pedir ajuda ao filhos, isso estava na lei, mas eles em mais de uma oportunidade tinham deixado claro que não podiam ou não queriam ajudar. Prevenção então nem falar.
A pequena casa na qual criou os filhos, foi se reduzindo a cada chuvarada, mais parecendo um corpo dilacerado.
Desligou a eletricidade do amontoado de tábuas e para poder ler seus jornais, a solução foi a luz do poste da esquina e os óculos da falecida esposa, sobrepostos aos seus para ampliar um pouco mais as letras.
João leu o jornal do dia anterior, recolhido na lixeira de uma rua qualquer e foi para sua casa. Tomou seu remédio, o último comprimido da caixa, pensou que não teria mais dinheiro para comprar outra caixa neste mês, seriam quinze dias sem a medicação. Jantou a última fatia de pão, amaciado num copo de água com açúcar. Dormiu e sonhou com uma tigela de sopa fumegante, lençóis limpos e cobertores quentes. Sonhou com remédios, exames, óculos e jornais. Sonhou com a esposa e acordou. No céu. João lutador. João desesperança. João das contradições. |
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| Ângela I. Maieski |
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Novo Hamburgo RS |
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| De 51 a 60 anos |
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| 10/04/2008 |
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